Passar para o Conteúdo Principal
 
Hoje
Hoje
Máx C
Mín C

imagem

 

“Trinhão no Mapa” – Georreferenciação, resiliência e determinação como escudo da “nossa” floresta.

Geral
Trinh o no mapa website post 1 980 2500
30 Julho 2018
Da pequena aldeia de Trinhão, em Pampilhosa da Serra, chega-nos um projeto verdadeiramente inspirador. A plataforma BUPi (Balcão Único do Prédio), criada pelo governo para permitir a identificação de propriedades de forma gratuita até 31 de outubro, impulsionou a mobilização da organização local ATDS (Associação Trinhaense de Desenvolvimento e Solidariedade), que através de uma meritória conjugação de esforços, conseguiu levar a cabo um projeto inédito.

Antes de mais, na génese do projeto “Trinhão no Mapa”, está o terrível fogo que, entre outras localidades, devastou o Concelho de Pampilhosa da Serra, em junho do ano transato. Segundo Anselmo Lopes, membro da ATDS e um dos responsáveis pela iniciativa, terá sido essa calamidade a “principal razão pela qual alguns jovens Trinhaenses nos sensibilizaram na tentativa de evitar que este ciclo infernal de incêndios continuasse a repetir-se”.
Foi assim constituído um grupo de trabalho de 36 pessoas, com o intuito de “ajudar as pessoas a conhecer melhor os seus terrenos, para assim “garantir um Trinhão limpo e protegido de futuros incêndios”. A ideia de ter “Trinhão no mapa”, ganhava ainda mais força após sair legislação que acabaria por incluir o Concelho de Pampilhosa da Serra entre os Municípios piloto para a georreferenciação, ou seja, para a localização dos terrenos no mapa. Posteriormente, uma casualidade acabaria por colocar a Associação Trinhaense em contato com a Sr. Professora Filomena Gomes, da Escola Superior Agrária de Coimbra, que prontamente se disponibilizou a enviar dois alunos estagiário para o Trinhão, para ali desenvolverem o seu estágio curricular da licenciatura em Ciências Florestais e Recursos Naturais.

Com a parceria entre a ESAC e ATDS, o sonho de ter os terrenos de Trinhão georreferenciados, ganhava agora contornos reais. Assim, de 21 de maio a 6 de junho, os futuros engenheiros Ricardo Fernandes e Rita Carvalho, realizariam um trabalho notável ao darem “vida” a uma iniciativa que se revelaria um extraordinário exemplo de resiliência e determinação.

“O cadastro florestal é uma coisa muito importante para o nosso país”. O alerta de Rita Carvalho, aquando da apresentação dos resultados do projeto, no passado dia 22 de julho, introduziria uma série de advertências, no sentido de tentar alertar a comunidade para a necessidade urgente da georreferenciação. No mesmo contexto, Ricardo Fernandes, realçava que com esta ferramenta tudo muda, uma vez que “além de pôr os terrenos no BUPi, é possível colocar as propriedades no Google Earth para assim obter as coordenadas, latitude e longitude, e desta forma ir ao local exato da propriedade.”
Para termos uma ideia, os 10 Concelhos inseridos nesta primeira fase do BUPi, representam um total de cerca de 245 000 hectares, sendo que das 677 849 matrizes, 470 000 (cerca de 80%) não estão registadas no IRC (instituto dos Registos e Notariado). Ora, se transpusermos esta realidade para um contexto nacional, facilmente compreenderemos a gravidade da situação e consequentemente a pertinência da georreferenciação.

Em Trinhão, ao longo de um mês e meio, os futuros Engenheiros, com a colaboração da ATDS e das gentes locais, conseguiram identificar 60 proprietários e 600 matrizes, das quais 300 estão já georreferenciadas. Numa primeira instância podemos cair no erro de julgar que é pouco, mas a esta tarefa está inerente um conjunto de adversidades impossíveis de contornar num curto espaço de tempo. Segundo os jovens empreendedores, a principal dificuldade reside no fato de, por vezes, “não se saber quem são os proprietários dos terrenos ou, por outro lado, os proprietários não saberem que terrenos têm”. Neste contexto, Jorge Custódio, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra, sugere que é aí que reside um dos maiores problemas da floresta, pois o facto de por vezes as pessoas não saberem de quem são as propriedades, complica sobremaneira a sua tarefa de gestão.

Beatriz Fidalgo, professora da Escola Superior Agrária de Coimbra e orientadora de estágio de Ricardo e Rita, refere que “os políticos não têm noção do que ainda há para fazer, da dimensão titânica desta tarefa”. Porém, não poderia estar mais satisfeita com o sucesso desta iniciativa, salientando a ótima relação que existiu entre os futuros engenheiros e a comunidade Trinhaense. “Eles tiveram o trabalho técnico, mas se não houvesse ninguém na comunidade a mobilizar o trabalho e a comunidade propriamente dita, a tarefa não se tinha realizado. A iniciativa deve partir de todos nós.”

Também Miguel Martins, membro da direção nacional e da comissão executiva do partido “Os Verdes”, destaca este protejo como “um exemplo de como a universidade deve trabalhar e, por outro lado, um exemplo de como a própria população se deve mobilizar para defender os seus próprios interesses.”

Seguro da preponderância desta iniciativa, Jorge Custódio, afirma que este trabalho “foi significativo” e “vai perdurar por muitos anos”, ainda que desejasse que esta ideia se estendesse a outras aldeias, dentro e fora do concelho. Numa alusão aos incêndios do ano transato, sente que “temos o dever de aprender com a história, sensibilizando-nos mutuamente para este tipo de situações”. No que diz respeito à importância da georreferenciação, acredita que “se não for pelo valor patrimonial, as pessoas devem respeitar o que herdaram pela ligação emocional”, a fim de evitar que este capítulo pesado da história se repita.

Foi neste contexto que a pequena aldeia de Trinhão quis ser grande. Grande, ao demonstrar que por vezes a diferença entre o querer e o fazer está na vontade e na determinação. Conseguiu sê-lo e poderá servir de inspiração para que outras localidades o sejam, também. Para Manuel Antunes, presidente da ATDS, Trinhão caminhou progressivamente de uma “situação cinzenta para uma situação verde e ordenada.” A verdade é que essa ordenação depende muito de cada um de nós, da nossa predisposição para encarar o cadastro florestal como algo muito sério, com implicações diretas nas nossas vidas. Mas é possível. Trinhão, Ricardo e Rita mostraram-nos isso.

Partilhar